Opinião · Liderança e aprendizagem
Vitória sem método vira sorte; sorte sem disciplina não se repete
Depois de uma boa entrega, é preciso compreender o que pode ser repetido, o que dependeu de uma exceção e quanto esforço a equipa consegue sustentar.
Imagine uma empresa que entrega um projeto na sexta-feira, exatamente no prazo. O cliente agradece, a equipa recebe os parabéns e o responsável já pensa em aceitar dois contratos semelhantes. Até aqui, uma vitória. Agora abra a conta: houve trabalho pelo fim de semana anterior, um fornecedor fez uma exceção e uma pessoa experiente corrigiu, em silêncio, o erro que quase comprometeu a entrega. Se o próximo projeto depender das mesmas concessões, o que foi realmente aprendido?
Eu celebraria a entrega. E reservaria tempo para essa pergunta antes de prometer o dobro. Reconhecer o esforço de quem resolveu o problema não obriga ninguém a transformar a emergência em modelo de gestão. É perfeitamente possível agradecer a dedicação e admitir que a organização precisa de funcionar melhor.
O resultado merece uma segunda leitura
Um bom resultado pode ter várias causas misturadas: preparação, competência, condições favoráveis, ajuda inesperada. Também pode acontecer o inverso: uma decisão razoável produzir um resultado mau porque uma condição mudou. Julgar apenas pelo desfecho torna a aprendizagem pobre. Quem decide precisa de olhar para aquilo que sabia na altura, para as alternativas disponíveis e para os riscos que aceitou.
Isso exige alguma honestidade, sobretudo depois dos aplausos. Se o cliente comprou porque o concorrente ficou sem capacidade, talvez a proposta fosse boa, mas a venda não demonstra, por si, uma superioridade permanente. Se um prazo foi cumprido porque a equipa adiou descanso, a entrega foi real; a capacidade adicional pode ter sido apenas emprestada. A fatura humana chega depois, sem a simpatia de um aviso prévio.
A minha preocupação é a decisão seguinte. Expandir com uma explicação errada para o primeiro sucesso multiplica uma fragilidade que ainda não se tornou visível. Numa rede de franchising, isso pode significar pedir a novas unidades que repitam um desempenho obtido em condições que elas nunca tiveram.
Reconstruir o caminho, incluindo as exceções
Uma revisão útil começa pelo que se esperava e pelo que aconteceu. Qual era a promessa? Que recursos estavam disponíveis? Onde foi necessário mudar o plano? Quem percebeu o problema e o que fez para o resolver? As respostas devem permitir a outra pessoa compreender a decisão, sem depender da memória de quem esteve presente.
Convém ouvir quem executou antes de fechar a versão oficial. O responsável pode lembrar-se da orientação que deu; quem estava no atendimento pode lembrar-se da informação que faltava. As duas perspetivas ajudam a reconstruir a situação. Se a conversa se transformar numa procura de culpados, haverá bons motivos para esconder precisamente os detalhes de que a empresa precisa.
Há um exemplo institucional interessante: o sistema de lições aprendidas da NASA reúne registos revistos de programas e projetos. Cada lição inclui o acontecimento que a originou e recomendações destinadas a alimentar formação, boas práticas, políticas e procedimentos. A referência é útil pela ligação entre ocorrência e ação. Guardar uma história de sucesso, por si só, não altera a maneira de trabalhar.
Numa empresa, eu começaria com um registo breve do caso e uma mudança concreta a experimentar. Por exemplo, no cenário inicial: antecipar a confirmação do fornecedor e verificar os elementos críticos antes de prometer a data ao cliente. O registo deve dizer quem fará essa verificação, em que momento e o que acontece quando faltar uma confirmação. “Melhorar a comunicação” fica bonito na ata, mas continua à espera de alguém que descubra como.
Repetir o essencial sem congelar a equipa
É aqui que surge uma objeção legítima: formalizar tudo não acabará por criar burocracia? Pode criar, sim. Se cada aprendizagem acrescentar uma autorização, um formulário e uma reunião, o processo depressa consumirá a atenção que deveria libertar. A resposta passa por escolher o que merece ser estabilizado.
Um critério importante é a consequência do erro. Uma verificação que evita comprometer uma entrega merece atenção diferente de uma preferência pessoal sobre a apresentação de um documento. Outro critério é a frequência: uma exceção rara pode precisar de uma orientação para decidir, em vez de uma regra aplicada todos os dias. Método também exige saber o que retirar.
Depois, é preciso testar a transferência. Outra pessoa, com os recursos normais da função, consegue executar o essencial e reconhecer quando deve pedir ajuda? Se só o fundador consegue interpretar as instruções, ainda existe dependência do fundador. E se alguém melhora o caminho, essa contribuição deve poder alterar o procedimento. Replicabilidade exige compreensão; decorar passos não resolve uma situação que mudou.
A disciplina inclui rever a própria regra
Eu ligaria cada mudança a uma observação na entrega seguinte: houve menos correções? O compromisso foi cumprido sem repetir o esforço extraordinário? O cliente recebeu aquilo que lhe foi prometido? A equipa consegue explicar o que ajudou e o que atrapalhou? Uma resposta positiva isolada ainda não prova uma relação de causa e efeito, mas permite decidir o próximo teste com mais cuidado.
Também é necessário combinar quando rever o método. A entrada de um novo fornecedor, uma equipa diferente ou uma alteração relevante na procura pode invalidar uma premissa. Insistir na rotina só porque ela funcionou antes é uma forma bastante organizada de deixar de pensar.
É neste trabalho que situo a Inteligência Resolutiva: compreender a situação, tomar uma decisão que possa ser executada e acompanhar as consequências para corrigir o necessário. Há pessoas, limites e interesses dentro de cada processo. Um resultado que depende sempre de alguém suportar o que o sistema não resolveu merece ser examinado, mesmo quando a folha de cálculo está verde.
A vitória merece celebração. A manhã seguinte merece curiosidade. Antes de anunciar a próxima expansão, eu gostaria de ouvir a equipa explicar o que agora sabe fazer melhor, o que ainda depende do acaso e o que precisa de mudar. Essa conversa dá menos fotografias do que a festa. Pode, no entanto, dar à próxima vitória condições mais justas para acontecer.